terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Eu te amo. Mas por quê?


E mal sabia eu que existia possível explicação. E existe explicação pro amor? Pro puro e imensurável, pra aquele amor que tira o ar do pulmão e distorce a vista, aquele que nos faz desenhar o coraçãozinho no vidro embaçado do boxe? Você, você mesmo. Eu te amo, a começar, pelas suas atitudes, porque você é mulher, porque você é pura; te amo pela sua intensidade. Pelo seu copo vazio no final das refeições, pela sua troca secreta de pratos no almoço, evitando assim uma briga maior. Te amo desde os seus ossinhos – entenda-se ossos – até as sardas da sua pele macia. Amo seus pezinhos, seus dedos longos, sua arte de fazer caretas e de saltitar quando está feliz. Amo sua felicidade, seu cafuné. Mas, mais ainda, acima de tudo, eu amo a maneira elétrica que seus olhos possuem quando encontram os meus, e vice-versa.


a.s

quarta-feira, 16 de março de 2011

apagar-me

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

leminski

terça-feira, 15 de março de 2011

Carta


Amor,


Não consigo dormir. Deve ser a noite fria. Por aqui as novidades vem só de vez em quando, sem pressa. A cidade é linda e você também. Mas eu gostaria de ver de novo a primavera nos seus olhos, porque há muito vim e há muito também quero voltar. Espero que agosto acabe logo, porque a vida é a mesma e eu não mais. Vou lhe mostrar que com uma bicicleta e um fim de tarde dá pra ser feliz e ir atrás da lua. Deixa o vento sussurrar aqui nessa janela, porque é quase como um sussurro seu. É quase uma sinfonia no silêncio que me segura. Não consigo dormir. Acho que é você.

artur schütte

quarta-feira, 2 de março de 2011

Do Me a Favour


she walked away, well her shoes were untied,

and the eyes were all red

you could see that we’ve cried

and I watched

and I waited

‘till she was inside

forcing a smile and

waving goodbye



arctic monkeys

terça-feira, 1 de março de 2011

O Natimorto Pt. II

O chuveiro
silencia,
e em meu silêncio
procuro
vislumbrar
o que se segue.
Ouço um som abafado,
imagino
a toalha sendo puxada
do aparador
e abraçando
as formas
da Voz.
Então, ela entra no quarto
sorrindo,
vestindo
apenas
a toalha
com o brasão
do hotel.

A Voz - Esqueci de separar minha roupa.

Procuro
em vão
desviar
o olhar:
Ela percebe
minha luta
e solta a toalha
para poder
se secar
enquanto
me umedece
de suor
e desejo.
Percebendo
minha derrota
seu olhar
me desafia.
Bruscamente
me levanto
e procuro
o cigarro.

A Voz - Acende um pra mim também?
O Agente - Claro.

Ela vem
nua
em minha direção
mas age
como se estivesse
vestida.
Toma o cigarro
da minha boca
e fuma
sorrindo.

O Agente - Uma vez eu estava na praia...

Trago.

O Agente - E vi um garoto construindo um castelo de areia. Ele era muito detalhista e avançava cuidadosamente em sua construção. Cuidava de cada detalhe pormenores, as minúsculas janelinhas, o recorte da muralha, a porta e até sua ponte suspensa. O menino dedicou um bom tempo, pacientemente, a seu projeto.

Trago.

O Agente - Uma vez concluído o castelo, o garoto tomou distância e contemplou a obra. Volteou sua réplica sorrindo de contentamento, depois começou a golpeá-la com os pés até desfazê-la por completo.

A Voz - Mais uma bronca em parábola?
O Agente - Como?
A Voz - Essa história me lembrou a do cachorro.
O Agente - Não, eu só queria me distanciar.
A Voz - Se distanciar? De quê?
O Agente - De sua nudez.
A Voz - Pronto, já estou vestida.
O Agente - Eu recorri à primeira história que me veio à mente por causa da minha determinação... você sabe, quanto a minha opção... assexual.
A Voz - Minha nudez te desconcertou?
O Agente - É, eu não esperava essa naturalidade.
A Voz - Te excitei?
O Agente - Prefiro não falar sobre isso.
A Voz - Por quê?
O Agente - Porque isso me excitaria ainda mais.
A Voz - Então, te excitei?
O Agente - Era isso que você queria?
A Voz - Quem sabe?

Lourenço Mutarelli

O Natimorto


"O Agente – Um dos meus tios, que por sinal era padeiro, para nos proteger e nos manter afastados do poço tentava nos assustar, dizendo que ali dentro, ali no fundo, havia um monstro.

O Agente – E nós, como éramos crianças, acreditávamos.

O Agente – Um dia meu primo, que hoje é advogado, por descuido acabou caindo no fundo do poço.

A Voz – Meu Deus! E se machucou muito?

O Agente – Fisicamente, não.

O Agente – Mas, como estava apavorado e levou algum tempo para que o resgatassem, ele ficou muito desesperado.

O Agente – Por sorte e por azar, ainda havia um pouco de água no fundo do poço.

O Agente – Por sorte, isso amorteceu sua queda.

O Agente – Mas, ao mesmo tempo, com a luz que entrava no buraco e incidia na água, ele acabou vendo o seu próprio reflexo.

O Agente – Por fim, quando o içaram, eu corri e perguntei a ele: 'E então, como é o monstro?'.

O Agente – E a resposta foi: 'Ele é como nós. Todos somos monstros'."

Loureço Mutarelli, O Natimorto.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Misto-Quente

"[...]
Houve um silêncio.
- Não fode. Trepei quando tinha sete anos de idade.
- Grande merda. Trepei com quatro anos.
- Claro. Na árvore do seu quintal!
- Fiz com uma garotinha debaixo da casa.
- Conseguiu ficar de pau duro?
- Claro.
- Você gozou?
- Acho que sim. Espirrou alguma coisa do meu pau.
- Claro. Você mijou na bocetinha da menina, Red.
- Não enche!
- Qual era o nome dela?
- Betty Ann.
- Porra - disse o cara que reivindicava a foda de quando tinha sete anos. - O nome da minha também era Betty Ann.
- Aquela puta - disse Red."

bukowski, misto-quente

sábado, 20 de novembro de 2010

darei, de algum jeito
um jeito de me ajeitar
porque não aguento mais
ser esse eterno poeta de bar

artur schutte

sábado, 13 de novembro de 2010

destino quis que a gente se achasse
na mesma estrofe e na mesma classe
no mesmo verso e na mesma frase

Paulo Leminski

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Tonight We Feel Alive


the taller you are
the harder you fall


four year strong

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Oh, Yes


there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

bukowski

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Creeps


Talvez um pouco medrosa demais, um pouco mais preocupada com o mundo à sua volta do que deveria. O perfeccionismo ignorante e indelicado que sacode e balança e explode a realidade que não é tão perfeita assim. Talvez mais bonita do que precisaria, talvez um pouco menos sutil do que seria adequado. Mas é assim: suficientemente ideal pra me dar alguma paz e uma irregularidade invejável de arrepios.

a.s

domingo, 27 de junho de 2010

Brinde

Ficaria honrado se fosse usado.

Brindemos mais uma vez
Ao que nos faz feliz:
Esse copo, que desce redondo
E essa mulher ao lado
Que de redonda não tem nada
Obrigado

a.s

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Um Sambinha


Enfim lhe recebo

Honradamente, poeticamente

Como quem abre os braços inteiramente sinceros

Como mais uma esperança vã

De ser perene

Como um simpático sambinha

Que vem suave, mas escuta-se

De um estranho jeito submisso

Comprometido à sua sina:

Que é feito para sambar

E nada além disso.


a.s

segunda-feira, 14 de junho de 2010

É

Que final romântico: morrer de amor.
a.s

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Finally

Now that you fucked up my entire life and all my best feelings, shall we finally dance?

a.s

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Uma Noite Que Dura Meses

Só agora senti que você não mais me pertencia. O por que não sei dizer, talvez seja porque a solidão só apareça depois de uns meses. Talvez porque eu preenchesse o vazio que você deixou aqui com doses de qualquer whisky barato e copos de cerveja sempre cheios. Parece que copos cheios simbolizam companhia, copos vazios simbolizam a solidão. Mas não sei mais pra onde ir, não sei mais aonde pertenço. A alegria dos bares não me invade como deveria, e a festança de uma noite animada já chegou ao fim. Uma noite longa pra uma vida curta, como já diria Hebert Vianna. Mas já não importa. O por que continua incerto, mas talvez seja porque quero que esse copo desgastado seja substituído pelas velhas lembranças, pela tua atual presença, ou por qualquer motivo, ser ou átomo que me afague e me afaste desse estado de penar.

artur schütte

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Culpa

Eu era o culpado, esse crime era meu.

Então lá veio aquele olhar, o mais amedrontador do mundo, o mais temeroso. Veio rápido como o vento, chegou de surpresa. Era aquela mesma menininha que eu havia cansado de não parar de olhar. Pensando bem, não estava tão cansado assim. Mas aquele ódio não parecia uma coisa boa. Talvez fosse o fim, talvez já fosse hora. Mais uma, talvez? Não conseguia raciocinar direito agora. Com o maior peso do mundo ela disse "Você roubou o amor que havia de sobra aqui dentro." "Problema", pensei. Ela continuou "Você não devia ter feito isso! Agora todo meu amor é seu".

Eu era o culpado, esse crime era meu.

artur schütte

quarta-feira, 24 de março de 2010

Gosto Inerente por Passado

Foi um susto mútuo ao se encontrarem. Havia passado mais ou menos muito tempo desde o último encontro. Um desparo insantâneo de coração foi friamente calculado em dois corpos diferentes. Foi então que encontraram-se os olhares. O fluxo flutuante entre eles foi invisível e irresistível. Cheiros e sensações misturadas viajaram pelo ar, ziguezagueando pela úmida brisa do verão. O elo paradoxal entre eles consistia na fala e nos atos. Atos de entrega silenciosa inspiravam os poemas românticos, a fala inspirava as tragédias e conspirava os pesadelos. A frieza na fala revela nada mais do que as cicatrizes talvez abertas que permaneçam em ambos. Mas cada um não consegue sentir ou ver feridas senão suas próprias. You can't feel it anymore.
"Faz tempo que não te vejo." - começou ele.
"Né."
"E como estão as coisas?"
"Tudo normal. Você?"
"Normal."

Silêncio. Faltou o que dizer. O silêncio em si é muito mais coerente do que sua descrição. Dificilmente se fala do silêncio. Ok, fale das árvores, do vento, dos pássaros, da estranha velhinha que passou pela calçada. Mas não tente descrever o silêncio.

"Era mais fácil conversar antes..."
"É mesmo, apesar de tantos problemas"
"Que problemas" Ele se ofendeu. "Havia problemas?"
"Não, não...! Digo, algumas contradições, você nem deve ter percebido."
"É... talvez. Mas então foi culpa minha?"
"Não sei. Talvez, um mistério. Meio contraditório não é?"
"É... mas eu sei que você gosta de velhas contradições."

artur schütte