terça-feira, 1 de março de 2011

O Natimorto Pt. II

O chuveiro
silencia,
e em meu silêncio
procuro
vislumbrar
o que se segue.
Ouço um som abafado,
imagino
a toalha sendo puxada
do aparador
e abraçando
as formas
da Voz.
Então, ela entra no quarto
sorrindo,
vestindo
apenas
a toalha
com o brasão
do hotel.

A Voz - Esqueci de separar minha roupa.

Procuro
em vão
desviar
o olhar:
Ela percebe
minha luta
e solta a toalha
para poder
se secar
enquanto
me umedece
de suor
e desejo.
Percebendo
minha derrota
seu olhar
me desafia.
Bruscamente
me levanto
e procuro
o cigarro.

A Voz - Acende um pra mim também?
O Agente - Claro.

Ela vem
nua
em minha direção
mas age
como se estivesse
vestida.
Toma o cigarro
da minha boca
e fuma
sorrindo.

O Agente - Uma vez eu estava na praia...

Trago.

O Agente - E vi um garoto construindo um castelo de areia. Ele era muito detalhista e avançava cuidadosamente em sua construção. Cuidava de cada detalhe pormenores, as minúsculas janelinhas, o recorte da muralha, a porta e até sua ponte suspensa. O menino dedicou um bom tempo, pacientemente, a seu projeto.

Trago.

O Agente - Uma vez concluído o castelo, o garoto tomou distância e contemplou a obra. Volteou sua réplica sorrindo de contentamento, depois começou a golpeá-la com os pés até desfazê-la por completo.

A Voz - Mais uma bronca em parábola?
O Agente - Como?
A Voz - Essa história me lembrou a do cachorro.
O Agente - Não, eu só queria me distanciar.
A Voz - Se distanciar? De quê?
O Agente - De sua nudez.
A Voz - Pronto, já estou vestida.
O Agente - Eu recorri à primeira história que me veio à mente por causa da minha determinação... você sabe, quanto a minha opção... assexual.
A Voz - Minha nudez te desconcertou?
O Agente - É, eu não esperava essa naturalidade.
A Voz - Te excitei?
O Agente - Prefiro não falar sobre isso.
A Voz - Por quê?
O Agente - Porque isso me excitaria ainda mais.
A Voz - Então, te excitei?
O Agente - Era isso que você queria?
A Voz - Quem sabe?

Lourenço Mutarelli

O Natimorto


"O Agente – Um dos meus tios, que por sinal era padeiro, para nos proteger e nos manter afastados do poço tentava nos assustar, dizendo que ali dentro, ali no fundo, havia um monstro.

O Agente – E nós, como éramos crianças, acreditávamos.

O Agente – Um dia meu primo, que hoje é advogado, por descuido acabou caindo no fundo do poço.

A Voz – Meu Deus! E se machucou muito?

O Agente – Fisicamente, não.

O Agente – Mas, como estava apavorado e levou algum tempo para que o resgatassem, ele ficou muito desesperado.

O Agente – Por sorte e por azar, ainda havia um pouco de água no fundo do poço.

O Agente – Por sorte, isso amorteceu sua queda.

O Agente – Mas, ao mesmo tempo, com a luz que entrava no buraco e incidia na água, ele acabou vendo o seu próprio reflexo.

O Agente – Por fim, quando o içaram, eu corri e perguntei a ele: 'E então, como é o monstro?'.

O Agente – E a resposta foi: 'Ele é como nós. Todos somos monstros'."

Loureço Mutarelli, O Natimorto.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Misto-Quente

"[...]
Houve um silêncio.
- Não fode. Trepei quando tinha sete anos de idade.
- Grande merda. Trepei com quatro anos.
- Claro. Na árvore do seu quintal!
- Fiz com uma garotinha debaixo da casa.
- Conseguiu ficar de pau duro?
- Claro.
- Você gozou?
- Acho que sim. Espirrou alguma coisa do meu pau.
- Claro. Você mijou na bocetinha da menina, Red.
- Não enche!
- Qual era o nome dela?
- Betty Ann.
- Porra - disse o cara que reivindicava a foda de quando tinha sete anos. - O nome da minha também era Betty Ann.
- Aquela puta - disse Red."

bukowski, misto-quente

sábado, 20 de novembro de 2010

darei, de algum jeito
um jeito de me ajeitar
porque não aguento mais
ser esse eterno poeta de bar

artur schutte

sábado, 13 de novembro de 2010

destino quis que a gente se achasse
na mesma estrofe e na mesma classe
no mesmo verso e na mesma frase

Paulo Leminski

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Tonight We Feel Alive


the taller you are
the harder you fall


four year strong