sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

DOS SABORES


Experimentarás os sabores da vida em câmera lenta,
Ou ficarás neste teimoso “não experimento, não gosto”?
Saibas que poucos têm a ousadia de não temer o remorso
Para sentir na ponta da língua as maiores delícias que o homem

[inventa


artur schütte

Turbilhão Barulhento de Denúncias


Não consigo mais me esquecer daquele pôr-do-sol tranquilo e laranja amarelado que me fez lembrar que tudo na vida pode ser perfeito, mesmo que por alguns segundos. A perfeição vai diminuir dolorosamente e em câmera lenta junto com o sol. Daí que dizem que a escuridão é triste. Dizem os mitos serem verdadeiros. Mas as aparências nunca são tão óbvias. Por isso jogo nessa folha em branco, mais uma vez, todos os problemas da minha vida e todas as minhas experiências, como um empirista que o bastante já viveu para contar. É quase uma obviedade que o amor envolva tudo que faz mal e bem ao mesmo tempo. Mas direciono discretamente esse pensamento, porque há os que pensem que amor é só bondade. Já vistes por acaso amor sem sofrimento e sem lágrimas de tristeza? Tudo bem se não, porque você não tem olhos como os meus, que enxergam. Sua cegueira abandona tudo que pode ser verdadeiro. Já disseram-te que a maldade está nos olhos de quem a vê? Talvez a maldade esteja nos meus nesse instante, mas também está contido neles a verdade que ausenta-se nos seus. Porque eu sei o que é o amor, eu sei me entregar. Eu sei sofrer honradamente. Mas você? Não guardo receios ou decepções pelas palavras de amor ingenuamente falsas que já recebi de teus lindos lábios. Você apenas não sabia o que estava dizendo. Não era uma mentira, você só não sabia. E essas linhas continuam preenchendo o papel que me recebe; o discreto direcionamento já vira um turbilhão barulhento de denúncias. Por fim, portanto. Uma expectativa guardada desesperadamente pede de joelhos que você descubra um dia tudo aquilo que pode tornar cada um uma pessoa mais forte e melhor. Eu quero você melhor. Porque você não ama; você não sabe o que é o amor.



artur schütte

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Vento do Norte


Já até imagino que meus olhos não sejam tão seus, apesar de terem sido alguns invernos atrás. Nessa busca infindável por felicidade eu às vezes me tranco nas próprias vontades e esqueço que não se controla o que se sente. Por segundos eu iria tão fundo que é impossível imaginar; vejo tais besteiras que passam pela vida e não consigo me conformar. A conformidade não passa, também, de uma forma mais ou menos aceitável de achar normal; ou de apenas deixar passar, pode-se deixar como está e simplesmente ser indiferente. Tenho alguns surtos indiferentes, mas não é como eu sou agora. Apesar de tudo, vim rabiscar essas palavras tolas em busca do que eu realmente sou; das descobertas estranhas que fazem com que eu sorria sem você. Só é difícil. Nessas difíceis decisões no escuro que eu descubro que a vida não é tão fácil assim depois de tudo que eu já dividi e sonhei. Até porque é incompreensível a divisão e sonhos por si só. Havia mais alguém que outrora estava aqui. Continuo tomando essas decisões que não sei dizer se são certas ou erradas; busco em ventos do norte algum motivo que eu esqueci pra jogar tudo pro alto e voltar atrás de quem tem o segredo de causar meu sorriso mais sincero.


artur schütte

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Tão Simples Decisão

Assim que nasci recebi em uma caixa uma misteriosa criatura da qual seu criador ainda discute a autoria. Há quem a julgue breve como um piscar de olhos, geralmente os mais velhos; há também quem já a julgue uma imensidão sem fim, fatalmente os mais jovens. A misteriosa criatura de dentro da caixa foi dada a mim, uns dizem que como uma espécie de presente, outros já apontam como uma responsabilidade da qual só eu mesmo devo cuidar, ainda que por repetidas vezes os pegue cuidando da minha. Diante de sua complexidade, já somam incontáveis as investidas de tentativas para sua explicação, porém, muito mais simplista, tenho a encarado como um caminho turvo, escuro, cheio de incertezas e desafios, o qual certamente entendi que não conseguiria percorrer sozinho; não por medo ou fraqueza, acontece que seu escuro é realmente sombrio. Por mais doloroso que seja devo entender que um dia a caixa de súbito se fecha e minha criatura para sempre se vai, sendo essa sua finitude a única certeza anunciada. Não fui tão ousado tampouco prepotente de nomear a criatura da caixa, quando a recebi já a haviam por um nome batizado, chama-se vida, e a mim só coube a tão simples decisão, vivê-la assim, até o fim, sim ou não.

Pedro Dalosto

Manchete



- Acidente grave, polícia é chamada e confirma ferimento nos acidentados ..

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Daqui de Dentro


Eu somente respiro as coisas que existem
Só espero o que pode vir
Não sei se um dia virão de verdade
Mas não quero cansar de pedir

Já que nisso não quero é perder tudo
Amanhã a gente não sabe
Mas hoje a gente pode tentar
Esse tal de futuro...

Odeio, daqui de dentro
Essa mania de expectativa
Esse vício de esperar um dia
Essa falta de sentimento

Vamos só brindar! E correr atrás
Porque a semana passou rápido
E a vida passa muito mais.



artur schütte

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Aos Meus Amigos Com Carinho


Privilégio do mar

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.


Carlos Drummond de Andrade